Reflexões – Marcos Castro | Você sabe a importância dos sonhos para seu bem-viver psíquico?

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De forma enfática e belíssima, por volta de 1900, Freud já citava que,

a interpretação dos sonhos (traumdeutung, em alemão) é a via régia que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente(ESB, Volume IV, 1900, Ed. 1996).

Notável e primordial considerar ainda, inicialmente, que os sonhos, seus sentidos e sua consequente possível interpretação, não são somente “um caminho” para acessar o inconsciente, mas, sobretudo, podem fornecer o essencial ponto de articulação e inflexão entre o “normal” e o psicopatológico que dói ou deseja!

É condição apaixonante, quase que simbiótica, a intersecção ímpar e intensa da psicanálise com a interpretação dos sonhos!

O árduo descobrimento empreendido por Freud, há mais de 100 anos, descortina um véu fundamental – suave ou não – no contexto psicanalítico ao possibilitar a investigação dos processos oníricos (oníricos = dos sonhos) que, de alguma forma, propiciam desvendar e esclarecer os processos psíquicos, tornando assim condição “sine qua non” a relação da psicanálise com o ato de sonhar!

Justifica-se, assim, mais ainda, a compreensão dos processos e conteúdos oníricos; visto, inclusive, estes “conteúdos mentais” revelarem o que foi ou está “reprimido”, ou excluído, da consciência pela ação defensiva do ego (elemento do “aparelho” psíquico que busca equilibrar as pulsões e desejos), que barra o acesso à consciência de parte do id (elemento mais primitivo do “aparelho” psíquico, que é puro impulso e desejo incondicional, sem freios).

É importante um retorno a Freud, no que tange à “traumdeutung”, com duas sintetizadas afirmações do próprio:

  • os sonhos não são absurdos, mas possuem um sentido;
  • os sonhos são realizações de desejos (de prazer ou desprazer).

Propício também frisar que, psicanaliticamente, o que é interpretado não é o sonho, mas sim seu relato. Freud já considerava que, o sujeito que sonha sabe o significado do seu sonho, só não sabe que sabe. Óbvio que isso ocorre devido a censura inconsciente que o impede de saber!

Portanto, a “traumdeutung” tem a função de clarear, dar acesso, a este conteúdo, ou sentido, oculto.

No contexto da psicanálise sabe-se que, o sentido do sonho não é claramente e de imediato acessado, nem pelo sujeito que sonha e tampouco pelo psicanalista.

O sonho é sempre algo “camuflado”, “disfarçado” da real satisfação de desejos e, portanto, sobre ele – o sonho – recai uma censura “deformadora”, para proteger o sujeito das ameaças suscitadas por seus desejos.

O sonho recordado é, pois, um substituto deformado de um conteúdo inconsciente, ao qual se pretende chegar através da interpretação(GARCIA-ROSA, 2005).

No que diz respeito aos registros dos sonhos – item essencial – tem-se aquele que é o sonho lembrado, recordado e relatado por quem sonha; e o “oculto”, inconsciente, o primordial à pretensa “traumdeutung”.

Lembrando: quem sonha sabe o significado do seu sonho, só não sabe que sabe!

Os sonhos possuem, portato, dois tipos de, digamos, “registros” de conteúdo! 

Segundo Zimerman (1999), autor que, pessoalmente utilizo muito, tanto em meus escritos como no aspecto clínico, tem-se:

  • Conteúdo Manifesto: designa o que aparece no consciente daquele que sonha, quase sempre sob a forma de imagens visuais, que ele pode ou não recordar depois de despertar.
  • Conteúdo Latente: corresponde ao conjunto de – ocultos – desejos, pensamentos, sentimentos, representações, angústias que estão represados no inconsciente e que somente terão acesso ao pré-consciente e ao consciente após o disfarçamento realizado pela elaboração onírica”.

Entende-se, neste ponto, oportuna a seguinte síntese: ao “processo” que transforma o conteúdo latente em conteúdo manifesto – via distorção e disfarce-, tornando “oculto” o conteúdo latente, dá-se o “nome” de elaboração onírica; já o caminho contrário na “estrada régia”, buscando o conteúdo latente através do manifesto (investigar e decifrar a elaboração onírica) trata-se, exatamente, do “trabalho” da interpretação (“traumdeutung”).

Ainda sinteticamente, neste item; e não menos importante, é salutar expor que, o conteúdo latente do sonho divide-se em três, digamos, “categorias” principais:

  • impressões sensoriais noturnas: aquelas que o sujeito que dorme tem seus órgãos sensoriais “invadidos” por sensações sentidas, tais como: sons, sede, fome, necessidades fisiológicas, alguma dor ou desconforto, entre outras…
  • “restos” do cotidiano: aqueles relacionados à vida normal; e que permanecem acossando o ego e inconscientemente ativos. São inúmeros os exemplos de preocupações, toda sorte de interesses e recordações, medo, angústias vividas, entre outros…
  • impulsos do id: aquilo que foi banido de gratificação e da consciência, como defesa do ego aos “apelos” do id no estado de vigília do sujeito. O que ficou “reprimido”, as pulsões do id censuradas e não admitidas pelo ego à consciência e à plena ou parcial consecução.

A “traumdeutung” foi concebida, é cientificamente atualizada, constantemente acrescida em ideias e conceitos; no entanto, está enraizada em um magnifico arcabouço de constructos teórico e práticas clínicas que a colocam, verdadeiramente, como a via régia que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente.

Seja na prática clínica ou na atuação científica (escritos) da psicanálise, JAMAIS se deve prescindir de sua – “A interpretação dos sonhos” – “leitura” atenta, investigação, análise e estudo contínuo de seus registros de conteúdo, categorias e “mecanismos camufladores” do trabalho onírico.

Se não há o que ajudar interpretar para diminuir ou sanar a dor e/ou compreender o desejo psíquico oculto, não há a psicanálise!

(Marcos Castro).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD. S. ESB, v. IV, 1900. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2005.

ZIMERMAN. David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Por Marcos Castro
Engenheiro; Especialista em Qualidade e Produtividade;
Mestre em OTH; Educador;
Escritor; Filósofo; Professor Universitário;
Educador; Palestrante; Psicanalista.
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